20.4.10

Obras

Quando o sol chegou para o almoço, apontado chão na vertical, cinco homens largaram as mãos do trabalho e partiram em dois grupos. O martelo e o cinzel de cada um ficaram pousados no chão, por cima dos blocos rectangulares de granito; de cada um , e de ferramentas falando, só as fitas métricas e os lápis evitaram ficar ao abandono: umas de pendura no bolso das calças e uns como se fossem a única haste de óculos imaginários. São as leis da natureza do código genético de um trolha.
O mais pequeno dos grupos, não era bem um grupo, só tinha dois homens. As rugas na testa do mais moreno diziam a quem passava um dado adquirido nas observâncias da dor: a fome, em determinados estados psicológicos, é um conceito inexistente. E por mais que o corpo esteja a ir à vida, uma cabeça dorida só tem nevoeiro diante dos olhos. O mais baixo e mais branco - e mais gordo - dos dois, ficou por perto, trocando a marmita pela força, a comida pelo apoio ao amigo. Estiveram dois minutos, sentados de lado para o mar e frente um para outro, a conversar com o volume adequado às palavras ditas em segredo, que nada, mas nada tinham a ver com o barulho do martelo no cinzel e do cinzel no granito. Desceram os degraus da meia laranja da praia da Granja e foram partir pedra. Em todos os sentidos atribuídos à expressão. 
Neste inverno, particularmente neste inverno, o mar cantou uma letra do Carlos Tê, alterando aqui e aqui o refrão, roendo uma laranja da falésia. Desfazendo a costa da Granja e em particular os degraus em pedra da meia laranja.
O outro grupo entrou numa carrinha branca e distribui-se da seguinte forma: um homem por cada uma das filas de bancos da Transit de nove lugares. A marmita de metal encostada ao volante tinha a sopa que a colher levava à boca. No meio, na tira de lugares mais escancarada pela porta de correr, uma cerveja sugada pelo gargalo estava na hora de se transformar em arroto. Da fila de trás só se ouvia a língua no céu da boca, se é que àquilo se pode chamar mastigar.
É provável que obra fique concluída antes do fim da primavera. Há quatro anos, em França, num estúdio de gravação, sem martelo, lápis, cinzel ou fita métrica, um grupo de músicos, de cantores e de cantoras, pegou numa série de músicas por eles escolhidas e realizou as obras necessárias até ficar concluído um disco chamado Band à Part. Hoje levei-o para correr comigo, protegido por um Ipod, e ele foi a banda sonora para o clip de imagens fornecido pela casualidade do percurso. Num dos troços de piche havia um cd partido, parecido com um queijo com uma fatia a menos. Esse nem os Nouvelle Vague conseguem consertar. E os senhores da Granja ainda menos.

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