Antes de o jogo de futebol ter chegado ao fim, o jogador com número onze nas costas, da equipa com camisola verde, calções pretos e meias brancas, pediu uma garrafa de água ao massagista, o massagista procurou ao lado do saco dos remédios no cesto das bebidas a mais cheia de todas, atirou-a para a frente, para as mãos do avançado que já vinha a correr e que estava a chegar já perto da linha lateral. Obrigado. Bebeu e pediu ao treinador para sair. Faltavam vinte minutos para o fim do jogo.
Não queria uma camisola suada colada nas costas, colada no peito, fria quando há fases menos movimentadas em campo. Não queria isso. Queria vestir roupa diferente de todas as pessoas que estavam por perto. Não tinha vontade de partilhar uma bola nem de andar para trás e para frente em grupo. Queria chegar, ficar sentado, fechar a porta.
Queres o quê? Quero sair. Estás cansado? Não. Estou farto.
Houve no ar, durante um minuto, o lado perturbador do silêncio, mas depois desse minuto, havia no ar uma placa electrónica com o número 11 assinalado pela junção de pontos vermelhos, ao lado do número 17 com pontos todos os verdes. Eram as cores na placa, o silêncio no ar e o barulho de pés rápidos e breves na relva a entrar em campo e o peso de pés lentos ao abandonar o jogo, a equipa, o futebol, a vida em grupo.
Em vez do balneário, preferia estar no quarto. Ou na sala. Onde tivesse de ser, desde de que fosse em sua casa e desde de que não fosse ali. Não queira o banho daquela água e já não sabia se estava a ouvir aquele som que vinha do campo e se aquele som que o golo tem quando sai da bocas de um grupo de pessoas era real ou se já eram palavras que inventava em cima de um papel, escondido das bancadas.
Tirou a camisola para a guardar num saco de plástico. Os calções e as meias ficaram no chão, em cima das chuteiras. Bebeu mais água, bebeu da torneira, rodou para fechar. Levantou a cara e olhou para o espelho. Estava embaciado. Antes assim. O que estava a ir embora passava então por ser o vulto de um homem anónimo.
Em casa trocou os pés pelas mãos. Escreveu as voltas que a vida dá para dizer as voltas que a vida deu. Disse o nome e disse a idade. Disse o sexo. Disse que tinha abandonado o futebol de uma vez por todas porque gostava mais de livros do que de balizas. Estava mais inclinado para as frases; as jogadas já não. Era um homem diferente, escreveu, contando onde estava quando decidiu trocar uma coisa pela outra, escrevendo que o jogo ainda não tinha chegado ao fim quando o jogador com o número 11 nas costas, da equipa com camisola verde, os calções pretos e as meias brancas, pediu água ao massagista e disse ao treinador que ia embora. Estava outra vez em campo. Riscou com mais força no papel com a caneta na mão direita, dominou a bola com o pé esquerdo, fintou, fintou dois e fintou três. O quarto desviou-o com o corpo. Chutou com força e foi golo. Tinha uma escrita previsível e um futebol virtual.
28.3.11
26.3.11
Emprestar amigos aos mortos
Não quero escrever um texto celestial. Não quero socorrer-me dos anjos, nem quero ver por perto nuvens brancas almofadadas. E não quero poder deitar-me sobre um colchão de penas. Quero acordar para a realidade, quero saber que vai doer e quero, sem ter medo, cair desamparado no chão duro dos dias.
24.3.11
O supermercado daltónico
Gulpilhares - Na cadeia de supermercados onde acabo de entrar, os cestos de plástico com rodinhas são verdes, mas estes não são, são cinzentos, e a troca inesperada de cor faz-me duvidar, quando me baixo para pegar na pega de um, do lugar onde estou, e eu, por um instante, interiorizo que me enganei e exteriorizo um gesto ao pousar o cesto e volto o olhar para a entrada e volto a ter a certeza de estar no lugar certo, porque as letras com o nome do lugar assim o dizem. O lugar está certo, eu estou certo. Errada está a cor cinzenta do cesto com rodas pretas.
Na prateleira onde estão os livros não há um livro capaz de me fazer esticar o braço, de o escolher, de o abrir, o folhear e o ler nos primeiros parágrafos. Ponto final na prateleira dos livros. A sair de lá para conduzir o cestinho daltónico até ao corredor do pão, levo de frente com uma funcionária, ela igualmente daltónica, numa farda azul, estranha à uniformidade verde de todos os outros supermercados com o mesmo nome e a mesma música e o mesmo anúncio e o mesmo imposto de valor acrescentado.
Na prateleira onde estão os livros não há um livro capaz de me fazer esticar o braço, de o escolher, de o abrir, o folhear e o ler nos primeiros parágrafos. Ponto final na prateleira dos livros. A sair de lá para conduzir o cestinho daltónico até ao corredor do pão, levo de frente com uma funcionária, ela igualmente daltónica, numa farda azul, estranha à uniformidade verde de todos os outros supermercados com o mesmo nome e a mesma música e o mesmo anúncio e o mesmo imposto de valor acrescentado.
23.3.11
извините, пожалуйста
(ainda) Moscovo- Em não tendo como, nem por onde, entender, ver é a solução, mas ver em observando com método e atenção. Acabámos de sair da estação de metro. Acabámos refere-se nós, nós refere-se aos quatro portugueses que somos à procura de uma rua. Rua da qual sabemos detalhes essenciais, mas da qual não sabemos o todo. Sabemos a parte. E saber a parte se não revelou de todo insuficiente. Saber a parte já nos trouxe desde o hotel à estação de Teatralnaya, e da estação de Teatralnaya, logo a seguir ao teatro Bolshoi e após muitas perguntas debaixo do chão, perguntas feitas com um dedo em cima de um mapa-mini do metro, saber a parte acabou por nos fazer chegar à estação Biblioteka Lenina. Esta:
Queremos subir as escadas quando soubermos onde elas estão, as escadas correctas. Oito olhos no mapa, oito olhos nas placas, oito olhos no mapa, oito olhos nas placas, a comparar, a adivinhar e finalmente a desvendar o cirílico. Com maior ou menor engano chegámos ao ponto de encarar a luz do dia que existe para lá das velhas portas de madeira e que brilha nos vidros baços.
Na rua. Voltámos a estar na rua. Somos quatro e temos um mapa, mas somos portugueses e eles são russos. Somos portugueses e queremos ajuda em inglês, mas eles não querem. No meio deste desencontro já não há sequer quem páre para responder ao isco excuse me, please. Old Arbat está perto. O mapa diz que sim só não sabemos onde. Estão perto de nós os capecetes dos pilotos dos caças soviéticos. Estão perto de nós os bivaques, as fardas, o exército e a marinha. O comunismo há-de estar ali ao dobrar das esquina, só não sabemos onde. E é quando nos vem à memória uma frase batida. Uma frase que vem a correr de 2005 para salvar a situação. Uma frase utilizada pelo José Milhazes quando foi preciso chegar de carro a Novogorsk. A frase é a que está no título: извините, пожалуйста. Pronuncia-se mas ou menos assim: izbinit pajouste. E quer dizer: desculpe, por favor. Um senhor russo parou, olhou para o mapa e a falar em russo explicou como chegar à Rua Old Arbat. Eu disse sempre que sim com a cabeça e talvez tenha deixado sair um ou outro да (diz-se dá, quer dizer sim), comunicando com o salvador da nóssia pátria de quatro portugueses sem tirar os olhos dos braços e das mãos do homem. Foi só virar à direita e voltar a virar à direita e lá estava a rua onde vendem as memórias do comunismo.
Queremos subir as escadas quando soubermos onde elas estão, as escadas correctas. Oito olhos no mapa, oito olhos nas placas, oito olhos no mapa, oito olhos nas placas, a comparar, a adivinhar e finalmente a desvendar o cirílico. Com maior ou menor engano chegámos ao ponto de encarar a luz do dia que existe para lá das velhas portas de madeira e que brilha nos vidros baços.
Na rua. Voltámos a estar na rua. Somos quatro e temos um mapa, mas somos portugueses e eles são russos. Somos portugueses e queremos ajuda em inglês, mas eles não querem. No meio deste desencontro já não há sequer quem páre para responder ao isco excuse me, please. Old Arbat está perto. O mapa diz que sim só não sabemos onde. Estão perto de nós os capecetes dos pilotos dos caças soviéticos. Estão perto de nós os bivaques, as fardas, o exército e a marinha. O comunismo há-de estar ali ao dobrar das esquina, só não sabemos onde. E é quando nos vem à memória uma frase batida. Uma frase que vem a correr de 2005 para salvar a situação. Uma frase utilizada pelo José Milhazes quando foi preciso chegar de carro a Novogorsk. A frase é a que está no título: извините, пожалуйста. Pronuncia-se mas ou menos assim: izbinit pajouste. E quer dizer: desculpe, por favor. Um senhor russo parou, olhou para o mapa e a falar em russo explicou como chegar à Rua Old Arbat. Eu disse sempre que sim com a cabeça e talvez tenha deixado sair um ou outro да (diz-se dá, quer dizer sim), comunicando com o salvador da nóssia pátria de quatro portugueses sem tirar os olhos dos braços e das mãos do homem. Foi só virar à direita e voltar a virar à direita e lá estava a rua onde vendem as memórias do comunismo.
21.3.11
Movimentos circulares repetitivos
Andar à volta, passar ao lado, voltar ao princípio, chegar ao fim. Começar de novo. Subir, subir, subir. Cair. Dar um tombo, trambolhar. Correr para a frente, andar para trás, parar, arredondar. Andar à volta, passar ao lado, voltar ao princípio, chegar ao fim. Começar de novo. Subir, subir, subir. Cair. Dar um tombo, trambolhar. Correr para a frente, andar para trás, parar, arredondar. Andar à volta, passar ao lado, voltar ao princípio, chegar ao fim. Começar de novo. Subir, subir, subir. Cair. Dar um tombo, trambolhar. Correr para a frente, andar para trás, parar, arredondar. Andar à volta, passar ao lado, voltar ao princípio, chegar ao fim. Começar de novo. Subir, subir, subir. Cair. Dar um tombo, trambolhar. Correr para a frente, andar para trás, parar, arredondar. Andar à volta, passar ao lado, voltar ao princípio, chegar ao fim. Começar de novo. Subir, subir, subir. Cair. Dar um tombo, trambolhar. Correr para a frente, andar para trás, parar, arredondar. Andar à volta, passar ao lado, voltar ao princípio, chegar ao fim. Começar de novo. Subir, subir, subir. Cair. Dar um tombo, trambolhar. Correr para a frente, andar para trás, parar, arredondar. Andar à volta, passar ao lado, voltar ao princípio, chegar ao fim. Começar de novo. Subir, subir, subir. Cair. Dar um tombo, trambolhar. Correr para a frente, andar para trás, parar, arredondar. Andar à volta, passar ao lado, voltar ao princípio, chegar ao fim. Começar de novo. Subir, subir, subir. Cair. Dar um tombo, trambolhar. Correr para a frente, andar para trás, parar, arredondar.
20.3.11
A senhora, outra vez
Disse no dia em que vi pela primeira vez uma pessoa a morrer, os olhos dele estavam espantados como estavam espantados os olhos deste rapaz naquela manhã. Nunca mais me esqueço que eram dez horas porque vi o homem do correio quando eu estava a subir os degraus do eléctrico. Tive medo de poder estar a chegar uma carta registada e de ter de voltar a sair de casa outra vez no dia seguinte para a levantar no posto. Foi quando aquilo aconteceu sem aviso de recepção.
A senhora
Disse sou eu a vizinha e acudiu ao cobrador dos bombeiros voluntários, o homem de chapéu à polícia, de casaco à comandante de navio, de sapatos à patife, um homem à banda desenhada da cabeça aos pés, perdido no cimento do chão, dentro de uma roda de passeantes, transeuntes e moradores. Sou eu a vizinha de quem todos esses em redor lhe estão falar baixinho para eu não ouvir, mas como sou eu, a que ouve tudo, ora diga lá o que quer de uma vez que eu ouço este prédio por fora e por dentro
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