Gulpilhares - Na cadeia de supermercados onde acabo de entrar, os cestos de plástico com rodinhas são verdes, mas estes não são, são cinzentos, e a troca inesperada de cor faz-me duvidar, quando me baixo para pegar na pega de um, do lugar onde estou, e eu, por um instante, interiorizo que me enganei e exteriorizo um gesto ao pousar o cesto e volto o olhar para a entrada e volto a ter a certeza de estar no lugar certo, porque as letras com o nome do lugar assim o dizem. O lugar está certo, eu estou certo. Errada está a cor cinzenta do cesto com rodas pretas.
Na prateleira onde estão os livros não há um livro capaz de me fazer esticar o braço, de o escolher, de o abrir, o folhear e o ler nos primeiros parágrafos. Ponto final na prateleira dos livros. A sair de lá para conduzir o cestinho daltónico até ao corredor do pão, levo de frente com uma funcionária, ela igualmente daltónica, numa farda azul, estranha à uniformidade verde de todos os outros supermercados com o mesmo nome e a mesma música e o mesmo anúncio e o mesmo imposto de valor acrescentado.
24.3.11
23.3.11
извините, пожалуйста
(ainda) Moscovo- Em não tendo como, nem por onde, entender, ver é a solução, mas ver em observando com método e atenção. Acabámos de sair da estação de metro. Acabámos refere-se nós, nós refere-se aos quatro portugueses que somos à procura de uma rua. Rua da qual sabemos detalhes essenciais, mas da qual não sabemos o todo. Sabemos a parte. E saber a parte se não revelou de todo insuficiente. Saber a parte já nos trouxe desde o hotel à estação de Teatralnaya, e da estação de Teatralnaya, logo a seguir ao teatro Bolshoi e após muitas perguntas debaixo do chão, perguntas feitas com um dedo em cima de um mapa-mini do metro, saber a parte acabou por nos fazer chegar à estação Biblioteka Lenina. Esta:
Queremos subir as escadas quando soubermos onde elas estão, as escadas correctas. Oito olhos no mapa, oito olhos nas placas, oito olhos no mapa, oito olhos nas placas, a comparar, a adivinhar e finalmente a desvendar o cirílico. Com maior ou menor engano chegámos ao ponto de encarar a luz do dia que existe para lá das velhas portas de madeira e que brilha nos vidros baços.
Na rua. Voltámos a estar na rua. Somos quatro e temos um mapa, mas somos portugueses e eles são russos. Somos portugueses e queremos ajuda em inglês, mas eles não querem. No meio deste desencontro já não há sequer quem páre para responder ao isco excuse me, please. Old Arbat está perto. O mapa diz que sim só não sabemos onde. Estão perto de nós os capecetes dos pilotos dos caças soviéticos. Estão perto de nós os bivaques, as fardas, o exército e a marinha. O comunismo há-de estar ali ao dobrar das esquina, só não sabemos onde. E é quando nos vem à memória uma frase batida. Uma frase que vem a correr de 2005 para salvar a situação. Uma frase utilizada pelo José Milhazes quando foi preciso chegar de carro a Novogorsk. A frase é a que está no título: извините, пожалуйста. Pronuncia-se mas ou menos assim: izbinit pajouste. E quer dizer: desculpe, por favor. Um senhor russo parou, olhou para o mapa e a falar em russo explicou como chegar à Rua Old Arbat. Eu disse sempre que sim com a cabeça e talvez tenha deixado sair um ou outro да (diz-se dá, quer dizer sim), comunicando com o salvador da nóssia pátria de quatro portugueses sem tirar os olhos dos braços e das mãos do homem. Foi só virar à direita e voltar a virar à direita e lá estava a rua onde vendem as memórias do comunismo.
Queremos subir as escadas quando soubermos onde elas estão, as escadas correctas. Oito olhos no mapa, oito olhos nas placas, oito olhos no mapa, oito olhos nas placas, a comparar, a adivinhar e finalmente a desvendar o cirílico. Com maior ou menor engano chegámos ao ponto de encarar a luz do dia que existe para lá das velhas portas de madeira e que brilha nos vidros baços.
Na rua. Voltámos a estar na rua. Somos quatro e temos um mapa, mas somos portugueses e eles são russos. Somos portugueses e queremos ajuda em inglês, mas eles não querem. No meio deste desencontro já não há sequer quem páre para responder ao isco excuse me, please. Old Arbat está perto. O mapa diz que sim só não sabemos onde. Estão perto de nós os capecetes dos pilotos dos caças soviéticos. Estão perto de nós os bivaques, as fardas, o exército e a marinha. O comunismo há-de estar ali ao dobrar das esquina, só não sabemos onde. E é quando nos vem à memória uma frase batida. Uma frase que vem a correr de 2005 para salvar a situação. Uma frase utilizada pelo José Milhazes quando foi preciso chegar de carro a Novogorsk. A frase é a que está no título: извините, пожалуйста. Pronuncia-se mas ou menos assim: izbinit pajouste. E quer dizer: desculpe, por favor. Um senhor russo parou, olhou para o mapa e a falar em russo explicou como chegar à Rua Old Arbat. Eu disse sempre que sim com a cabeça e talvez tenha deixado sair um ou outro да (diz-se dá, quer dizer sim), comunicando com o salvador da nóssia pátria de quatro portugueses sem tirar os olhos dos braços e das mãos do homem. Foi só virar à direita e voltar a virar à direita e lá estava a rua onde vendem as memórias do comunismo.
21.3.11
Movimentos circulares repetitivos
Andar à volta, passar ao lado, voltar ao princípio, chegar ao fim. Começar de novo. Subir, subir, subir. Cair. Dar um tombo, trambolhar. Correr para a frente, andar para trás, parar, arredondar. Andar à volta, passar ao lado, voltar ao princípio, chegar ao fim. Começar de novo. Subir, subir, subir. Cair. Dar um tombo, trambolhar. Correr para a frente, andar para trás, parar, arredondar. Andar à volta, passar ao lado, voltar ao princípio, chegar ao fim. Começar de novo. Subir, subir, subir. Cair. Dar um tombo, trambolhar. Correr para a frente, andar para trás, parar, arredondar. Andar à volta, passar ao lado, voltar ao princípio, chegar ao fim. Começar de novo. Subir, subir, subir. Cair. Dar um tombo, trambolhar. Correr para a frente, andar para trás, parar, arredondar. Andar à volta, passar ao lado, voltar ao princípio, chegar ao fim. Começar de novo. Subir, subir, subir. Cair. Dar um tombo, trambolhar. Correr para a frente, andar para trás, parar, arredondar. Andar à volta, passar ao lado, voltar ao princípio, chegar ao fim. Começar de novo. Subir, subir, subir. Cair. Dar um tombo, trambolhar. Correr para a frente, andar para trás, parar, arredondar. Andar à volta, passar ao lado, voltar ao princípio, chegar ao fim. Começar de novo. Subir, subir, subir. Cair. Dar um tombo, trambolhar. Correr para a frente, andar para trás, parar, arredondar. Andar à volta, passar ao lado, voltar ao princípio, chegar ao fim. Começar de novo. Subir, subir, subir. Cair. Dar um tombo, trambolhar. Correr para a frente, andar para trás, parar, arredondar.
20.3.11
A senhora, outra vez
Disse no dia em que vi pela primeira vez uma pessoa a morrer, os olhos dele estavam espantados como estavam espantados os olhos deste rapaz naquela manhã. Nunca mais me esqueço que eram dez horas porque vi o homem do correio quando eu estava a subir os degraus do eléctrico. Tive medo de poder estar a chegar uma carta registada e de ter de voltar a sair de casa outra vez no dia seguinte para a levantar no posto. Foi quando aquilo aconteceu sem aviso de recepção.
A senhora
Disse sou eu a vizinha e acudiu ao cobrador dos bombeiros voluntários, o homem de chapéu à polícia, de casaco à comandante de navio, de sapatos à patife, um homem à banda desenhada da cabeça aos pés, perdido no cimento do chão, dentro de uma roda de passeantes, transeuntes e moradores. Sou eu a vizinha de quem todos esses em redor lhe estão falar baixinho para eu não ouvir, mas como sou eu, a que ouve tudo, ora diga lá o que quer de uma vez que eu ouço este prédio por fora e por dentro
17.3.11
As bonecas russas
Moscovo - Ken, figura de plástico do imaginário infantil norte-americano, não existe na Rússia. Aqui as bonecas não ligam a rapazes de pólo anil, calças brancas drobradas nas beiras, sapatos de vela azuis com atacadores brancos em pele e sola da mesma cor e um pull-over rosa caído sobre os ombros, com as mangas apertadas no peito. Aqui as bonecas não ligam a esses rapazes de corte de cabelo engomado, a esses modelos tão limpos tão limpos que estão à beira de deixarem de ser rapazes para passarem a ser naturalmente raparigas.
Estas Barbies de pele e de carne e de osso e de cabelos verdadeiros e de pestanas verdadeiras, têm pedras preciosas no lugar dos olhos, mas não têm sucedâneos do amaricado, perdão, americano Ken. Estas Barbies não gostam muito de homens. Esta Barbies é mesmo possível que não gostem nada de homens. Elas gostam de cilindros, muitos, de bancos aquecidos em pele, de volantes grossos e carroçarias grandes. Gostam de pneus altos e largos. Gostam de vidros pretos e de modelos traduzidos em milhares de euros. Só no fim disto tudo é que guardam um bocado do acto de gostar e então gostam perdidamente do tipo mais baixo, mais velho, mais gordo que vai ao lado a conduzir a relação de interesses. E mais rico.
"As Bonecas Russas" é o título de um filme francês que faz a continuação, cinco anos mais tarde, do filme "A Residência Espanhola". È sobre a tentattiva de um jornalista reconciliar o trabalho, a escrita e o amor. Da minha parte posso dizer que não vinha a Moscovo há cinco anos.
Estas Barbies de pele e de carne e de osso e de cabelos verdadeiros e de pestanas verdadeiras, têm pedras preciosas no lugar dos olhos, mas não têm sucedâneos do amaricado, perdão, americano Ken. Estas Barbies não gostam muito de homens. Esta Barbies é mesmo possível que não gostem nada de homens. Elas gostam de cilindros, muitos, de bancos aquecidos em pele, de volantes grossos e carroçarias grandes. Gostam de pneus altos e largos. Gostam de vidros pretos e de modelos traduzidos em milhares de euros. Só no fim disto tudo é que guardam um bocado do acto de gostar e então gostam perdidamente do tipo mais baixo, mais velho, mais gordo que vai ao lado a conduzir a relação de interesses. E mais rico.
"As Bonecas Russas" é o título de um filme francês que faz a continuação, cinco anos mais tarde, do filme "A Residência Espanhola". È sobre a tentattiva de um jornalista reconciliar o trabalho, a escrita e o amor. Da minha parte posso dizer que não vinha a Moscovo há cinco anos.
16.3.11
Os caminhantes
Moscovo - Em contraponto vertical aos profissionais sentados, encontram-se de igual forma em número assinalável, homens e mulheres, amadores em pé, com um livro na mão. Amadores no sentido de amantes, pessoas que gostam sem saber como, sem perguntar porquê. Uma das actividades observável num russo enquanto caminha é a capacidade de continuar a andar com um livro aberto por uma mão, colocado por essa mão em frente aos dois olhos, continuando a caminhar no mesmo passo de quando os olhos estão de horizonte desimpedido. Com os livros em frente seguem o caminho e ao seguirem estão a fazer ensaios sobre a cegueira, embora aquilo não seja um ensaio, seja a realidade a acontecer, seja o rapaz de casaco militar e pernas finas a ser levado pelos outros sentidos para escadas rolantes do metro como se aquele seu corpo fosse um tronco perdido à mercê da natureza nas cataratas de Niagara. E aqui vem ele, com o cabelo riscado ao lado, aqui vem ele a descer nesta escadaria a pique, enquanto eu subo e os dois neste cruzamentos somos duas diagonais que nunca se vão tocar, mas que tocam. Porque ele ao ir à sua vida está a ir e ao mesmo tempo a ficar na minha, está a entrar nestas linhas, a ficar guardado para sempre na minha memória. Agora é a vez de uma rapariga loira escutar o sinal verde para peões e passar por nós que estávamos parados a encarar a mudança de cor do sinal e a ganhar vantagem porque só agora estamos a arrancar. Tem uma gabardine cinzenta amarrada por um cinto cinzento e deixa-se seguir no trote de um par de botas cinzentas. Leva um livro em frente ao rosto. Desconheço o conteúdo, desconheço o autor, desconheço até a língua e desconheço o título. Não sabendo uma vírgula dessa história, sei o suficiente para dizer que em todas aquelas páginas há a magia que lhe permite caminhar de olhos fechados.
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