28.12.09

O meu primeiro porno

Prólogo continuado

Ao reentrar no quarto, fez por passar ao largo da cama. Era lá que o mundo inteiro se fodia, naquele ringue sem cordas. A coisa fazia-se no rectângulo deitado ao chão, onde dois metros e vinte de comprimento se cruzam com dois metros exactos de largura. Naquela madrugada ele tinha sido um bom animal. Tinha sido o animal que ela estava a precisar que ele fosse.

Na quietude de uma cabeça sozinha num apartamento sobre o rio Douro, enquanto recuperava os passos perdidos da noite anterior, o homem que ainda agora julgava ter morrido, esteve prestes a tropeçar e isso só de se ter lembrado a última erecção. Última de anterior, não última como se tivesse sido há uma enormidade de tempo. De adjectivo em adjectivo faz tangentes imaginárias a superlativos relaccionados, em grande escala, com o dispositivo sexual que tinha deixado, a noite inteira ao dispor de uma cidadã, que apesar de já a conhecer de trás para a frente, por dentro e por fora, ainda não tinha tido oportunidade de dar um passo tão primário como o de perguntar o nome. A rapariga tinha sofrido do mesmo lapso inquiritivo, pelo que as coisas estavam empatadas no final do combate.

Posto isto, ele continuava à procura da pessoa que um dia tinha sido em casa de uma estranha que dela sabia apenas a ter entranhado até mais não. Não irá chegar ao local onde está a resposta, continuando a fase da vida em que deixa o corpo em rounds, espalhado pelas noites da cidade, a caminho do útero de mulheres com perninhas de abertura fácil.

27.12.09

O meu primeiro porno

Prólogo
Quando eu morrer, não chores por mim. Posso estar a divertir-me.
Sem mais uma palavra, um ponto, ou uma vírgula, pousou o telefone no telefone. Perdeu a conta aos minutos a seguir a esta parte do dia. Ao longo de todos estes anos nunca precisou de um papel ou de uma caneta para saber todos os tempos e pessoas do verbo perder.
Quando a última frase foi dita, sobre ele se poderá dizer que, para cadáver, não tinha mau aspecto. As três rugas do lado externo da órbita direita mantinham-se mais fundas do que as três rugas do lado externo da órbita esquerda. Isso era visível a olho nú. E como tal, inquestionável.
A barba era demasiado nova para morrer daquela forma. Tinha seis dias junto ao queixo e por cima do lábio superior. E era dois dias mais nova na zona onde o maxilar se prolonga até ao pescoço e nas bochechas. Bochechas côncavas, encostadíssimas aos dentes pela parte de dentro da boca. Daquela boca tinha saído a sentença de pena de morte. Porquê? Por causa de um homem farto de ser homem dentro do parâmetros estabelecidos por lei. Esse homem nú com ossos à vista nos ombros, nos cotovelos, nos joelhos e nos tornozelos. Esse homem de nádegas alvas e pénis escurecido pela cor da mistura da quantidade de mulheres que por ele foram passando. Esse homem, de pé em frente ao fim. Esse que só se apercebe que afinal está vivo porque esteve tão perto de si próprio ao espelho. O vidro embaciado começou por tapar o rosto. Quando o rosto já não via o rosto, o rosto olhou para baixo e quando o fez viu os dedos dos pés sairem de perto dos dedos dos pés, viu os calcanhares ficarem perto dos calcanhares e por fim os calcanhares a caminho de desaparecerem do espelho. A morte não devia ser bem bem aquilo, pé ante pé, no chão gelado da casa de banho da mulher com quem tinha dormido ontem e a quem esperava ser apresentado hoje.

23.12.09

O português

O português é o melhor do mundo a ir ao shoppping. Vai como ninguém e vai tanto. Vai de manhã, vai à tarde, vai à noite. Informações recolhidas junto de fonte de segura dizem que também vai durante os sonhos. Até é capaz de dizer que não vai, mas depois vai. E quando vai, usa a estrada estando já na posse de outra patente: a do melhor condutor do mundo.
Vai pela direita das filas todas, porque nunca se apercebe do trânsito parado em ponto morto. Costuma ir na marcha branda com o queixo no guiador e as mãos entre os dois, guiador e queixo. [Se for mulher, leva a buzina mais a peito]. Depois vai de carro até à porta [se for mulher ainda vai mais] e como ainda não teve tempo de gastar as ultrapassagens todas, segue aos saltos entre com licenças nas escadas rolantes [se for mulher, aqui repousa].
O português é o melhor do mundo a desconhecer as horas. Aliás, só conhece uma, a última. E aí a acontece o fenómeno sobre amplitudes e densidades. Na correlacção entre o tempo, há quilómetros de minutos de utilização zero. E depois há mil e uma tarefas para executar em... mil e um segundos. Vai daí, mesas existem onde o bacalhau já está no prato sem vestígio de prendas por baixo do pinheiro.
O português é o melhor do mundo a jogar ao natal. O pai é incapaz ir para dentro da roupa vermelha com um taxa de álcool no sangue permitida por lei. Só faz a coisa por cima. E a troco de mini-chantagens conjugais. Veste-se de pai natal quando a mãe promete não dizer mais nada sobre o número de copos de vinho, whisky e champanhe, não necessariamente por esta ordem. E ainda a troco de uma promessa daquela prenda no sapatinho que fica por baixo dos lençóis [se for mulher, aqui diga de sua justiça].
O português é o melhor do mundo a falar de qualquer outro português. E quando o faz, faz com tudo. Seja para dizer um punhado de generalizações sobre pessoas a caminho de um centro comercial, ou então para ridicularizar os jogos de casal de um qualquer pai de família. Jogos de casal não são jogos de cama. Jogos de casal e jogos de cama, aqui, não são aquelas prendas que se oferecem no natal, excepto se for mulher a oferecer.
Por falar nisso, que horas são?

20.12.09

Hoje

Na projecção do filme, a tela abria a sala de cinema na direcção de uma rua semi-deserta. O tom sépia da imagem inicial era um plano aberto sobre uma cidade poluída. Este ou aquele adereço passam como notícia de rodapé a pretexto de sinalizarem um entardecer ventoso. Na beira do passeio, o cú rijo de um homem só confirma a temperatura negativa do dia sentado sobre o cimento cinzento às bolas pretas. As manchas escuras são pontos da história onde se diz era uma vez uma chiclete. O pés deste solitário calcam o chão calçados por umas botas grossas em pele de antílope. As pernas tremem à vez. De frio e de nervosimo. Os cotovelos estão nos joelhos, as mãos têm as palmas nas testa, quando os dedos já vão abrindo e fechando caminhos imaginários nos carreiros dos cabelos.
O único ser humano desta curta-metragem está a falar sozinho com a boca fechada. Arrepende-se em silêncio: do sorriso que não deu, da escolha errada de todas as palavras, da transmissão desarticulada de tudo o que tinha para dizer, da dor que causou, dos olhares que se evitaram, das lágrimas que os olhos choraram às escondidas, do beijo que ficou mais longe, do tempo que o dia perdeu. Hoje... Hoje foi o dia em que o amanhã não se deve inspirar.
Quando a projecção terminou, os dois únicos espectadores continuaram sentados. A tela, vazia de qualquer conteúdo, era algo mais do que uma metáfora.

18.12.09

Hollywood mon amour

Homem quase de meia idade segura o Ipod, coloca os headphones e desaparece dentro de uma música. Não há factos, nem há provas. Há a vontade de acreditar ou não. Mas que foi assim, foi. E as coisas que são e não têm a prova de ter sido, são, regra geral, aquelas que realmente foram. Toda esta conversa para dizer que consta que: lá dentro, no interior da música, a voz de uma mulher faz acreditar no ceú, tal qual nos contaram quando éramos miúdos e acreditávamos. Em tudo. Tudo pode ser um homem no céu, dentro de uma música, em que a voz de uma mulher era um anjo se os anjos existissem. E o homem, de quase meia idade, pouco católico, vê tudo em tons de azul e criaturas celestiais. Até sonhou beijar a mulher da canção, não fosse isso ser como tocar a boca do inferno. Hesitou primeiro. Ardeu depois na paz do senhor. As chamas falavam de Electric Dreams.

14.12.09

As coisas que acontecem

Bem contadas eram em número de sete, as horas, na tarde deste domingo. Nenhuma hora é boa para escutar uma empregada de loja falar sobre futebol e esta, obviamente, também o não foi. Dizia, entre dobras de casacos de malha com botões para homem: "nesta altura do campeonato é bem bom". Ela estava obviamente a falar sobre o preço dos casacos, pese embora o que aquela boca dizia não fosse senão o dizer de uma mulher com ouvido de homem e martelado pela gíria. Em dois segundos decidi-me pelo silêncio. E quando o fiz, foi como se tivesse soprado o apito final numa expansiva, mas inútil conversa sobre modos e senhoras.
Numa outra loja, em dois degraus alongados, a paleta de camisas faz um arco-íris entristecido. Ou é das cores, ou é dos folhos. É certo que quem faz um folho, fá-lo por gosto. Pois faz. Mas as camisas são feias. Horríveis até, porque conseguiram atemorizar certas partes do meu corpo. O pescoço, os braços, o peito, a barriga, os ombros e as costas pediram às pernas para sairem dali o mais depressa possível. Assim foi.
Na rua, passava a haver, naquele certo instante, uma manifestação de homossexuais de todas as idades, acima dos 18 anos, e sexos. Protestavam contra as administrações das lojas por só haver secções para homens e para mulheres. Um moço mais inculto estava a ficar entusiamado sempre que o grito da ordem diza secção. Ao ouvido, um amigo explicou-lhe que era secção e não sexão. O rapaz foi cabisbaixo e partir dali, para ele a marcha já não era uma marcha, era murcha.
Mais à noitinha, o casal de rapazes escolheu para o café, um café-concerto. No palco, o show era um homem e uma viola amarela de madeira. Vieram os acordes e quando veio a primeira estrófe de Porto Côvo, um deles disse ao par uma outra frase sobre o tédio que tinha por aquela música. Teve esta resposta: "a letra podia ser bem pior. Podia começar assim... Roendo uma falange na Rodésia...". À noite, já na cama, um deles amuou por não conseguir ter orgasmos múltiplos. O outro ficou a pensar se para aquilo não havia concerto ou se então não havia conserto. Fosse, como fosse, isso era coisa de mulher. Mesmo aquelas com ouvido de homem.

7.12.09

Fernando

Era homem para não me perdoar se deixasse a minha memória esquecer-se dele. Vi-o hoje pela primeira vez quando a noite já ia há muito de breu e o Coura mandou a água para cima da terra por ordem superior de uma barragem situada mais acima no rio. As hierarquias são assim. E os caudais aguentam as ordens de montante até ao dia em que engrossam de vez e avançam desenfreados para além dos habituais trilhos. Como hoje. No lugar onde a rua não servia o próprio propósito, a proposíto de um lençol de água, de um lençol não, de dois o três edredons de água sobre o empedrado, numa distância de uns bons duzentos metros.
Aqui parámos o carro. Aqui decidimos seguir em frente. O faróis eram pequenas lanternas lançadas à negritude do caminho. Aqui decidimos seguir pelo meio, porque pelo meio não devia haver rio, e à esquerda ou há direita talvez houvesse. Os pneus nunca deixaram de sentir o chão. Lá fomos.
Na marca onde a água acaba, está um homem sorridente, com óculos baços. Tem altura de um português de 68 anos. Sorriu pela segunda vez quando abrandámos, com as mãos nos bolsos e um ligeiro guinar frontal, como quem quer meter conversa: "vocês são os segundos a passar aqui", disse, no tom exclamado de quem dá as boas vindas com uma vénia aos forasteiros aventurados, bem aventurados neste caso.
A scooter branca do Fernando já foi da filha psicóloga quando ela andava a estudar em Viana do Castelo. Por trás do avental do motociclo, Fernando transporta dois garrafões de vinho tinto. A mota anda com ele porque a filha já não precisa. Está bem na vida, tem 33 anos e não quer homem. Só por ser solteira "já foi a Londres, a Paris à dislei, à Índia, à Turquia, aos Estados Unidos, ao Brasil, ao Brasil não quer ir mais porque não gostou daquilo lá". A filha está a morar em Lisboa com a mãe e com o irmão. O Fernando veio de lá ontem. Tem casa em Belém, "no melhor sítio de Lisboa, onde toda a gente quer ter", mas o norte do coração deste homem está cravado no minho, em Vilar de Mouros.
O Fernando está meio espantado por nos ver ali. Porquê? Os novecentos habitantes de Vilar de Mouros já sabem tudo sobre a chuva no inverno e sabem dar graças a deus quando a chuva traz as cheias, para lavar o rio e deixar os restos do rio fertilizarem a terra.
A conversa com o Fernando está quase a terminar. Ele aponta lá para longe na água. "Eu ajudei a trazer o Elton John e a Amália Rodrigues para cantar ali". A luz dos médios de um carro aponta para lá e hoje esse passado está submerso.
Em Vilar Mouros, de qualquer um dos lados da ponte romana, ninguém precisa dos avisos provenientes da capital do império para saber que o que sobe, desce, o que molha, seca e o que começa, acaba.

PS: enquanto isto, a família do Fernando vendia cachecóis do Benfica à porta do estádio da Luz. A filha psicóloga foi uma vez de propósito à Polónia só para ver a campa do antigo Papa. Esqueci-me de lhe dizer que o Wojtyla chegou a ser guarda-redes quando era novo.

Bob Dylan

Aquele bendito instrumento musical, a máquina de escrever, e os seus botões de onanizar tímpanos, as teclas, corpos fora do corpo,...