12.5.10
59 segundos
1986
A sanfona não é um banco
28.4.10
O antigo fiscal do mercado de Vila do Conde
Até sempre amigo
20.4.10
Obras
19.4.10
Veraz
30.3.10
Elisabete de Nápoles
29.3.10
Ainda há homens que casam com mulheres
21.3.10
Nem sabes de que terra és
5.3.10
Falta-me chão
4.3.10
Chinelos azuis
17.2.10
Coincidência
Na noite a seguir à noite de carnaval, o rapaz que respondeu à rapariga está em casa. A televisão repõe um filme sobre comportamentos obsessivos e compulsivos. Antes do fim da segunda parte, uma senhora com ar para ser mãe e avó, responde a uma senhora com ar de ser filha e mãe. A mais noiva das duas estava a redigir uma carta de agradecimento e perguntava como é que se escrevia coincidência. A mais velha, mãe da mais nova e avó do ainda mais novo, soletrou a palavra: c-o-i-n-c-i-d-ê-n-c-i-a. A filha escreveu tudo direitinho para agradecer ao médico o facto de estar a ajudar o filho doente, o tal que aparece antes descrito como o ainda mais novo.
E eu, de cama há quase dois dias numa semana que é de férias, tento encarar com naturalidade a simultaneidade de diversos acontecimentos. É o que o dicionário diz, quando fala em coincidências.
15.2.10
A República Portugueza
Eram três horas da tarde. Era o dia dos namorados. O homem quer passar pelo quiosque para comprar o jornal que há-de ler ao café. A mulher diz que sim e que não se quer esquecer de uma revista para ler entre a torrada e o chá. Compram o jornal na rua de Sampaio Bruno, em frente à Casa da Sorte, onde o chão ainda é às pedras brancas e negras. E aí o azar bate à porta, ou então foi o nariz, porque o café está fechado. Desde ali, até ao lugar onde o carro está estacionado acontece o primeiro parágrafo do texto. Vamos ao terceiro.
Um namorado, no dia dos namorados, leva a namorada à cadeia. Dirão já as mais impetuosas almas que o romantismo, tal como o azar, ficou à porta. Mas isso seria como meter o nariz onde não se deve. Porque o namorado vai pagar a ousadia em croissants e torradas, ao lanche, e rosbife mais tarde, ao jantar. Mas não saltemos já na cadeia dos acontecimentos. Vamos à cadeia da relação. Ao Centro Português de Fotografia. À exposição Resitência, sobre o tempo em que a república portuguesa ainda se escrevia com zê. Vale a pena a visita. Ao fim de uma hora entre a alternativa republicana e a luta contra a ditadura, em imagens a preto e branco, porque não sair de lá com um colorido disparate onde se diz que nos séculos anteriores os presos viviam numa casa muito bonita.
Ao lanche, também houve café com leite e chá gelado, este último pedido por favor numa embalagem de temperatura natural. Ao jantar, os líquidos vinham de lambreta, quando eram vinho de pressão, e numa lata, mais destinada aos refrigerantes.
A noite ia acabar no Coliseu do Porto. Nada como um concerto para fechar um dia desconcertante, fica sublinhado o registo em português preguiçoso. Onde a língua chora como uma bola o faz quando é maltratada. Isto de se entrar no Coliseu e de se começar a falar de futebol confirma o facto de estarmos em Portugal. Ou então a culpa é da camisola do guitarrista. Tem todos os losangos utilizados pelo Paulo Bento e mais um. Pior está o teclista. Arrisca uma chicotada psicológica. E é o que lhe vai acontecer quando a mama direita da menina mais gorda do coro lhe acertar na cabeça. A ele ou ao senhor que controla os bilhetes para entrada na plateia. A mama esquerda já desceu do palco três ou quatro vezes.
Indiferente a tudo isto, a Joss Stone dança com o clitóris. A voz ferra os ouvidos antes de chegar à alma.
31.1.10
Carta a um desconhecido
Tens droga nos olhos. Seguramente terás droga nos bolsos. Vestes um casaco verde da cor da tropa. Estás em pé no apeadeiro da Aguda, no lado poente da linha. [És um homem feio]. Ainda nem deves ter 40 anos . Estás à espera de gente que traga mais gente, de dinheiro que multiplique o dinheiro[É que és mesmo feio]. Essa cicatriz do lado esquerdo da cara, se é para meter medo, deixa-te ficar assim, virado como estás para mim. Escusas de me dar a outra face. Esse tom de pele é vermelho e moreno ao mesmo tempo. Isso deve ser doença.
Enquanto deixas o tempo passar, entre um e outro cliente, enquanto os comboios se fazem ao norte e ao sul, tu, que há muito perdeste o rumo, ignoras por completo a função primária do Keffiyeh enrolado no teu pescoço. Essa peça foi ocidentalizada por via da excessiva exposição televisiva e, cá entre nós, é vulgarizada ao nosso conhecimento com o nome do homem que a vestia todos os dias. Esse lenço Arafat não foi feito para andar ao pescoço . A moda do oeste fez com que ele descesse no corpo, mas o Keffiyeh foi inventado (e é usado nas origens) para proteger a cabeça da exposição solar directa.
Só estava a olhar para ti desta forma para te dizer que tens uma forma acessível de preservar a pele doente. Era só dobrar o Keffiyeh ao meio, na diagonal, para fazer um triângulo. Este sol inesperado de Janeiro não teria como te fazer mal. Como eu não olhava para te fazer mal.
O teu olhar está à espera de um movimento meu para agir. Tenho os braços presos no peso na tua ignorância. Morre ao sol.
28.1.10
O filme do jogo
Ora, avivando a memória: um jornalista assiste ao exercícios de aquecimento de duas equipas de futebol e uma de arbitragem num campo da segunda divisão. São dois ou três pormenores de uma noite onde onde dois ou três graus, por positivos que sejam, e são, não deixam de acrescentar algo de negativo ao olhar do homem da roulotte. Marcou um encontro nas traseiras no estabelecimento móvel. Junto ao tronco da árvore, para tapar a vista de qualquer vista. Só aí, na escuridão absoluta, se tornou visível a deficiência do senhor. Ele não tinha a mão esquerda. A asa do saco de plástico pendia de um lado para o outro, como pendiam os olhos deles em busca de um qualquer intruso. A asa segurava-se mesmo ao meio do coto. Coto não. Era um pulso sem mão.
A única mão deste homem, a direita, vasculhava o interior do saco até ao fundo do saco e era como se no fundo do saco não houvesse fundo, tantos foram os mergulhos, os fracassos e as idas e as vindas sem o maço de cigarros americanos. Num exercício mental, sugeri que o fumador já fumava qualquer coisa portuguesa, para acabar de vez com aquela cena de filme de série b. Pressionei o vendedor para saber o porquê de tudo aquilo. Porquê vender às escondidas tabaco legal ao preço de tabela? Porque sim. Porque ele tinha deixado de fumar vai para dois anos e a mulher podia não acreditar nele se encontrasse uma caixa de cartão cheia de volumes e um saco de plástico atulhado de maços. O contrabandista de ocasião segurou por fim um maço vermelho e branco. Sorri ao senhor a minha melhor solidariedade de ex-fumador. Sem lhe chegar a contar do pressentimento de uma vitória dos vermelhos e brancos, os do Braga, sobre os azuis, do Freamunde. Se ao menos o outro fumasse Português Suave...
20.1.10
Homem temporariamente nú
As fundações de um homem que por acaso se quer vestir e entra numa loja de roupa, arriscam-se a não ter pernas para andar. Falemos de calças. Se fosse para ter o cú à mostra não as vestia, nem as tinha em necessidade de comprar. E uma tira de veludo da anca ao tornozelo hoje não, porque não é dia de comunhão solene, nem há vagas para paquete no centro de emprego. Isso... atirem-me essas de ganga pós lixívia ou pedra pomes... Não estamos aqui para assaltar ninguém, muito obrigado. E entregamos à menina do atendimento o cliché pernas para que te quero. Uma frase que o português só diz para trincar a própria língua.
Vamos às camisas. Não sendo toureiro, elder, mesa de cozinha ou cortinado, a coisa tende a fugir para o complicado. Para já não falar daquela camisola. Já vi aquele padrão em algum lado. Já sei. Foi em casa da minha mãe. Por cima da televisão com caixote de madeira. Em 1983.
É impossível ir embora e não reparar naquele casaco à prova de bala, tipo bibendum. Ou no blazer de corte igual ao do anão da ilha da fantasia.
Olhe, desculpe, onde fica a secção de homem?
19.1.10
ομπρέλα
As portas podem ser o meio a utilizar para abrir Salónica e trazer parte da cidade a este texto. Porque porta-sim-porta-sim o comércio chama pela rua. E quando a rua decide não ir, o comércio decide trepar paredes. Isto não é uma figura de estilo. É a cidade que vende a não querer ser esquecida pela cidade que pode comprar. E eu, mesmo não sendo dali, nesse dia sou. Pelos menos ao olhos dos vendedores.
Esta parede em frente está decorada com casacos de pêlo, casados de pele e binóculos. Tem medalhas da tropa, tem capas de disco. Tem um homem velho sentado num banco mais velho. Ele tem olho para o negócio, repara em mim, puxa-me para dentro, conta que o outro olho ficou na guerra com uma só palavra: war, war.
Faço gestos para dizer o que quero. Ele gesticula para dizer que tem. Deixa-me uma camisola de lã nas mãos e não é isso. Devem ser os meus gestos. Volto a fazer devagar. Ele diz que sim, mas vem de trás do balcão com umas botas. Começa a falar muito alto e entra mais gente, todos pensam neste estrangeiro como alguém capaz de estar a tentar pôr a mão na caixa registadora. Não estava. Estava só a chegar a prateleira onde estava o que eu queria. Peguei, pousei o objecto. Levantei o braços como quem diz paz. Rocei o polegar no indicador e no dedo médio a perguntar quanto é. O homem com olho para o negócio abriu a mão direita para dizer que eram três euros. Calculei que os outros dois dedos tivessem ficado na guerra.
Esses dois dedos de conversa, constam de um episódio com mais de três anos. Regressaram a mim pelas portas da fortaleza de Valença, à porta de uma loja onde um vendedor boliviano aponta a pistola aos presumíveis clientes. A pistola é de plástico e faz ondas intermináveis de bolas de sabão. Aponta à minha namorada e eu disparo. Guardo o momento na máquina fotográfica. A seguir entro com ele na loja e compro, pela segunda vez na vida, um guarda-chuva(ομπρέλα ).
7.1.10
Todos os verbos
3.1.10
Sorry honey
28.12.09
O meu primeiro porno
Ao reentrar no quarto, fez por passar ao largo da cama. Era lá que o mundo inteiro se fodia, naquele ringue sem cordas. A coisa fazia-se no rectângulo deitado ao chão, onde dois metros e vinte de comprimento se cruzam com dois metros exactos de largura. Naquela madrugada ele tinha sido um bom animal. Tinha sido o animal que ela estava a precisar que ele fosse.
Na quietude de uma cabeça sozinha num apartamento sobre o rio Douro, enquanto recuperava os passos perdidos da noite anterior, o homem que ainda agora julgava ter morrido, esteve prestes a tropeçar e isso só de se ter lembrado a última erecção. Última de anterior, não última como se tivesse sido há uma enormidade de tempo. De adjectivo em adjectivo faz tangentes imaginárias a superlativos relaccionados, em grande escala, com o dispositivo sexual que tinha deixado, a noite inteira ao dispor de uma cidadã, que apesar de já a conhecer de trás para a frente, por dentro e por fora, ainda não tinha tido oportunidade de dar um passo tão primário como o de perguntar o nome. A rapariga tinha sofrido do mesmo lapso inquiritivo, pelo que as coisas estavam empatadas no final do combate.
Bob Dylan
Aquele bendito instrumento musical, a máquina de escrever, e os seus botões de onanizar tímpanos, as teclas, corpos fora do corpo,...
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