O filme do jogo

É proibido fumar, é, e a proibição assume a forma literal da advertência em situações específicas, mas ainda não chegou ao ponto de venda. Os cigarros continuam a ser comercializados livremente e só por isso não entendo o homem da roulotte. Ninguém lhe estava a pedir um crime por encomenda para ele dizer schiu. Ninguém lhe estava a propôr um golpe de estado nas barbas, e já agora nas incontornáveis barrigas, não há como as evitar neste episódio, nas incontornáveis e inevitáveis barrigas dos GNR de serviço ao jogo de futebol em Freamunde. A coisa para ser assim contada numa noite de quarta-feira, requer, antes de mais, um sopro nas mãos e um esfreganço delas uma na outra.
Ora, avivando a memória: um jornalista assiste ao exercícios de aquecimento de duas equipas de futebol e uma de arbitragem num campo da segunda divisão. São dois ou três pormenores de uma noite onde onde dois ou três graus, por positivos que sejam, e são, não deixam de acrescentar algo de negativo ao olhar do homem da roulotte. Marcou um encontro nas traseiras no estabelecimento móvel. Junto ao tronco da árvore, para tapar a vista de qualquer vista. Só aí, na escuridão absoluta, se tornou visível a deficiência do senhor. Ele não tinha a mão esquerda. A asa do saco de plástico pendia de um lado para o outro, como pendiam os olhos deles em busca de um qualquer intruso. A asa segurava-se mesmo ao meio do coto. Coto não. Era um pulso sem mão.
A única mão deste homem, a direita, vasculhava o interior do saco até ao fundo do saco e era como se no fundo do saco não houvesse fundo, tantos foram os mergulhos, os fracassos e as idas e as vindas sem o maço de cigarros americanos. Num exercício mental, sugeri que o fumador já fumava qualquer coisa portuguesa, para acabar de vez com aquela cena de filme de série b. Pressionei o vendedor para saber o porquê de tudo aquilo. Porquê vender às escondidas tabaco legal ao preço de tabela? Porque sim. Porque ele tinha deixado de fumar vai para dois anos e a mulher podia não acreditar nele se encontrasse uma caixa de cartão cheia de volumes e um saco de plástico atulhado de maços. O contrabandista de ocasião segurou por fim um maço vermelho e branco. Sorri ao senhor a minha melhor solidariedade de ex-fumador. Sem lhe chegar a contar do pressentimento de uma vitória dos vermelhos e brancos, os do Braga, sobre os azuis, do Freamunde. Se ao menos o outro fumasse Português Suave...

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