2.3.10

O meu primeiro porno

Se isto fosse um post, seria a continuação do enérgico episódio onde se narra a gravidez de Álvaro

Era de madrugada dentro do quarto. Aos olhos de Álvaro, a visão da testeira da cama variava entre uma aproximação calculada do rosto à madeira de mogno e um afastamento que não levava consigo o cheiro do verniz. Estava tudo calculado. Sentado no banco de trás daquela carroça imaginária, Ricardo era o condutor de uma cena onde um homem possuía o outro e os dois assim, eram os veios de aço a ligar a rodas de um comboio antigo.
Por esses dias,ou por essas noites, madrugada dentro, Ricardo tinha vezes em que desconfiava da própria homossexualidade. Esta era uma delas. E logo esta, quando ele afastava obstáculos para o lado, com a total complacência do outro, é certo, mas quando ele afastava obstáculos para o lado com  ajuda das mãos e invadia traseira do outro com a zona mais ocidental do próprio corpo. E é nestes modos, nestes jeitos, nestes quandos, que Ricardo começa a ter a noção da falta que uma mulher lhe faz. Afinal queria um fêmea. Já não se dava por contente nem mesmo estando aos comandos de um ser mais efeminado.
Articulados iam, a caminho do fim de linha mais a direito, no sentido do prazer,.Ricardo perdia por instantes a concentração no que estava a fazer para se perder em divagações sobre a posição em que um se põe de quatro. E não compreendia, de facto, o porquê da colagem dessa imagem, de quatro, à frase pobre onde se fala da posição em que a Alemanha perdeu a guerra. Porque olhando para o Álvaro, quem o visse assim na suposta pele de derrotado em combate, nunca o diria nesse modo. Porque Álvaro, aos olhos de Ricardo, vergado à posição onde o povo foi repetindo que a Alemanha perdeu a guerra, não tinha ar de nada disso, antes pelo contrário. O rosto de Álvaro estava com o ar de quem está a ganhar. E a saborear a vitória.
O comboio foi até ao fim da linha sem descarrilar. O primeiro passageiro saiu sem dizer adeus. Fez da cama um apeadeiro. Vestiu uma camisa, as calças e os sapatos. Pôs um cachecol e o boné. Bateu com a porta. O outro deixou-se ficar para dormir sobre o assunto.

2 comentários:

O Faroleiro disse...

Realmente com mulher não estorva tanto !

é a teoria da sexualidade analisada na perspectiva do buraco; na fêmea é desprovido de obstáculo, não deixa de ser mais um buraco mas pelo menos é isento de outros atritos, é realmente um factor a ter em conta na escolha da sexualidade do parceiro.

Será do género do que se utiliza na cadeia, buraco não tem sexo... É buraco ! Se for "desimpedido" e sem pelo tanto melhor se não, é o que estiver mais há mão !

Estranho personagem este Ricardo...

António Reis disse...

estranhíssimo. Há letras até que fogem dele

Bob Dylan

Aquele bendito instrumento musical, a máquina de escrever, e os seus botões de onanizar tímpanos, as teclas, corpos fora do corpo,...