O homem que sabe sempre o que quer

O homem que sabe sempre o que quer, cheira mal. Cheiro muito mal mesmo. O homem que sabe sempre o que quer era um adulto moreno, nos anos oitenta, que vestia uma camisa de ganga, azul clara, e umas calças de ganga, azuis escuras. Tinha os braços peludos, segurava a mulher pelo pulso, coitada, não pelo aperto nos ossos, mas por estar a ser obrigada a levar o nariz até às proximidades de um fedor promovido em horário nobre na televisão portuguesa.
Com essa coisa que estavámos a começar a chamar de publicidade, o homem que sabe sempre o que quer multiplicou-se. Era vendido e apresentado com a mesma pujança em prateleiras dos supermercados ou nas montras arrumadinhas da loja lá da freguesia. O terrível odor foi conquistando o nariz do país, venda após venda, rua após rua, uma cidade atrás da outra. Em simultâneo, a campanha emprenhava a recente sociedade democrata pelos ouvidos, com esta frase que podem já estar cansados de ler, esta que diz... o homem que sabe sempre o que quer. Ele era um gajo muito mal vestido e a ele coube o mérito de espalhar a falta de gosto na hora de escolher a indumentária pelo território inteiro: de norte a sul; do litoral ao interior.
Vinte e cinco anos mais tarde, o homem que sabe sempre o que quer ainda existe, mas só em espamos. Continua a ser detectável a cem metros de distância nos dias normais, ou a cinquenta metros nos dias em que estamos com gripe.
A maneira mais fácil de acabar com esta recordação é dizer que o verdadeiro homem que sabe sempre o que quer vai levar para a cova o tudo aquilo que foi em vida, sem tirar nem pôr. Esta visão do inferno faz-me chamar um táxi: "é para o crematório se faz favor".
Faço a viagem com a ideia de reservar desde já uma data incerta, mas que fique de preferência o mais distante possível nos calendários. No percurso, uma dúvida: como é que o homem que sabe sempre o que quer nunca soube escolher um perfume de jeito?
Só de pensar em tudo isto, o meu nariz já não sabe se está no táxi ou se está junto da língua para testemunhar o relato da história. Reconheço a cara do motorista do táxi de algum lado. Dá-me a ideia de já não a ver há uns bons vinte e cinco anos. Rezo por uma luz vermelha no próximo semáforo...

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