As coisas que acontecem

Bem contadas eram em número de sete, as horas, na tarde deste domingo. Nenhuma hora é boa para escutar uma empregada de loja falar sobre futebol e esta, obviamente, também o não foi. Dizia, entre dobras de casacos de malha com botões para homem: "nesta altura do campeonato é bem bom". Ela estava obviamente a falar sobre o preço dos casacos, pese embora o que aquela boca dizia não fosse senão o dizer de uma mulher com ouvido de homem e martelado pela gíria. Em dois segundos decidi-me pelo silêncio. E quando o fiz, foi como se tivesse soprado o apito final numa expansiva, mas inútil conversa sobre modos e senhoras.
Numa outra loja, em dois degraus alongados, a paleta de camisas faz um arco-íris entristecido. Ou é das cores, ou é dos folhos. É certo que quem faz um folho, fá-lo por gosto. Pois faz. Mas as camisas são feias. Horríveis até, porque conseguiram atemorizar certas partes do meu corpo. O pescoço, os braços, o peito, a barriga, os ombros e as costas pediram às pernas para sairem dali o mais depressa possível. Assim foi.
Na rua, passava a haver, naquele certo instante, uma manifestação de homossexuais de todas as idades, acima dos 18 anos, e sexos. Protestavam contra as administrações das lojas por só haver secções para homens e para mulheres. Um moço mais inculto estava a ficar entusiamado sempre que o grito da ordem diza secção. Ao ouvido, um amigo explicou-lhe que era secção e não sexão. O rapaz foi cabisbaixo e partir dali, para ele a marcha já não era uma marcha, era murcha.
Mais à noitinha, o casal de rapazes escolheu para o café, um café-concerto. No palco, o show era um homem e uma viola amarela de madeira. Vieram os acordes e quando veio a primeira estrófe de Porto Côvo, um deles disse ao par uma outra frase sobre o tédio que tinha por aquela música. Teve esta resposta: "a letra podia ser bem pior. Podia começar assim... Roendo uma falange na Rodésia...". À noite, já na cama, um deles amuou por não conseguir ter orgasmos múltiplos. O outro ficou a pensar se para aquilo não havia concerto ou se então não havia conserto. Fosse, como fosse, isso era coisa de mulher. Mesmo aquelas com ouvido de homem.

Comentários

Pedro Barreira disse…
mas uma camisa de folhos até que não te ficava mal... :)
António Reis disse…
;) permita-me discordar, meu caro amigo lol abraço
jota disse…
"Nenhuma hora é boa para" ir ás compras ao Domingo no mês de Dezembro! Boa recuperação, espero que não precises de internamento para recuperares do trauma... LOL

Abraço
bicho disse…
Seria caso para afirmar que se pudesse contrair matrimónio, certamente se divorciaria este casal sui generis composto por parte macha e parte fêmeo !

Por outro lado, seria bem pior se um deles tivesse com o período !

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